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DANÇANDO TANGO

COM QUE SAPATO EU VOU?

          Recebi do nosso querido professor a árdua tarefa de fazer um texto “esclarecedor” sobre qual o melhor pisante na hora de sacudir o esqueleto. Busquei em todas as fontes esportivas e acadêmicas e no fim tenho mais dúvidas que respostas.Decidi então falar do pé.  Afinal de contas, para que foi inventado o sapato? Para proteger o pé! É difícil para as mulheres imaginarem que aquele objeto de fetiche seja apenas utilitário. Mas é verdade. Se entendermos como as coisas se passam em nossos pezinhos sofridos vamos passar a tratá-los com mais respeito.

            Dançar é uma variação de andar. Quando andamos, o peso do nosso corpo se desloca dentro de um trapézio que se deforma conforme vamos avançando ora um pé, ora outro. Com os dois pés alinhados, o peso cai no meio dos dois pés e, quando um deles está no ar, o peso cai no pé de apoio. Em cada  pé existe também uma distribuição flexível do peso em forma de triângulo: na base do primeiro e do quinto dedos e no calcanhar.

            Pois então, entendida essa parte mais chata, o que podemos dizer do calçado para dançar? Como todo bom calçado, tem que ser bem sucedido no quesito mais primário: proteção. Portanto, precisa ter uma estrutura firme, que não deforme com o peso, não solte do tornozelo e não machuque. Difícil, não é? Que o digam as bailarinas clássicas, pobres sofredoras! O tal sapato tem que ser firme na estrutura, mas tem que  permitir a movimentação natural do arco do pé (lembram que é uma estrutura flexível?). No nosso caso, não se exige performance, mas liberdade de movimentos, então o solado não pode prender no chão, mas também não pode escorregar demais. A escolha entre um tênis, uma sapatilha, um sapato raso ou com salto (grosso e médio, no máximo), será uma questão negociada entre o gosto do usuário e as suas limitações.

Quem já tem alguma deformidade na pisada e precisa usar correção (palmilha) terá que usá-la para dançar sempre.Este sapato tem que ter a gáspea rígida para que a palmilha não perca contato com o pé. Se a pessoa já tiver esporão de calcâneo, é aconselhável um salto, mas se o problema for de joanete, joelho ou coluna, o salto é a pior opção. A sensação de leveza observada quando usamos o sapato de salto reflete exatamente a redução da base de apoio provocada por ele, portanto só pode reduzir a base quem não tem qualquer problema com o apoio normal. Resumindo, cada um terá que procurar o seu ideal.

Diante de tamanho dilema, aproveito para iniciar uma campanha: Não iniciem uma atividade física sem consultar seus médicos! Nossos ossos, músculos e articulações já sofrem muito com as nossas tarefas habituais, e se os submetemos ao stress, eles nos deixarão na mão mais cedo. Portanto, nada de pedir atestado pra vizinha ou sobrinha médica. Essa é uma oportunidade de se consultar sem estar doente, o que faz paciente e médico bem felizes! Vamos cuidar do nosso corpo para que ele nos permita ter muitos prazeres e não “dance” antes do tempo.  

Denise Rodrigues Xerez é medica fisiatra, chefe do Serviço de Medicina
Física e Reabilitação do HUCFF,

           Professora  doutora da Faculdade de Medicina da UFRJ e soltarina de segunda geração.

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